O ÚLTIMO CIGARRO | POR CATARINA VALADAS

Acendi um cigarro, mas até ele teimava em me queimar a garganta em vez de me aliviar a secura que ela trazia.E assim, chegaste tu: De expressão carregada, como quem tem o mundo às costas.Rapidamente apaguei o cigarro, tal não era a mão trémula e traiçoeira. 
Cumprimentaste-me com um beijo na face, terno e demorado.. Arranquei-te quase à força o que te trazia a mim. E...de olhos presos no mar, ali fiquei enquanto te ouvia. 

As tuas palavras, eram arame farpado que lentamente envolvia a minha alma.Disseste-me tudo. Todos os se´s, que em tempos nos afastavam, todas as tuas demoras, todas as ausências de dias e semanas, sem nada dizer. 

Engoli em seco e deixei-me estar a absorver cada gota de saliva que te custava a engolir. 

Sentia perfeitamente que as tuas frases saiam cansadas, roucas, de difícil descodificação, mas eu sempre as percebi. 

Hoje não foi excepção.

Não consegui pronunciar nada, nada dizer. Talvez no fundo tudo me soava a despropositado, ou inadequado às tuas declarações.

Olhei-te nos olhos. 

Tu baixaste os teus, tal era o sinal de desconforto.Acendi um cigarro e deixei que a sua essência me perfurasse a alma, talvez me trouxesse algo coerente para acalmar o ambiente.

Levantei-me e disse-te: Obrigado por teres vindo. 

De olhos bem abertos, ficaste impávido e sereno. Não me agarraste, não me puxaste a ti. Não conseguiste abraçar-me, ou dar-me a mão.Apenas me deixas-te partir, de olhos embaciados e coração encharcado de promessas vazias. Onde te deixei, deixei muito de mim também....

E foi assim, que fumei o último cigarro

ano de 2010


Catarina Valadas

Terapeuta Holística e Inspiradora

E-mail: anacvaladas@gmail.com

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