ENTREVISTA A FILIPA VEIGA | POR JUST WOMAN

Do Yoga fala-se tanto e diz-se tão pouco... numa era em que cada vez mais existem pessoas interessadas em praticar. Mas atenção que Yoga é mais do que um conjunto de posturas destinadas a tonificar e a ajudar a perder peso, é muito mais que uma moda, é um forma de estar e de ser, é tanta coisa que fica por dizer. Pedimos alguns esclarecimentos a Filipa Veiga, que gentilmente acedeu a responder.
1.Do seu livro ficou-nos esta ideia - Yoga é União, do corpo e mente, da respiração e emoção, é transformação, é um caminho. Todas ouvimos falar dos benefícios da sua prática mas a velocidade das vidas de hoje em dia, parece impor-se à realização da mesma. Uma viagem de 1000 km tem início com um primeiro passo. Qual é o 1º passo que aconselha (além da tomada de decisão de se entregar)?

FV O yoga é a ferramenta que nos relembra o poder que temos dentro de nós, que nos faz sentir quem somos e, afinal, o que estamos aqui a fazer. A vida é linda demais para se esgotar à «velocidade dos dias de hoje». E passa rápido, mesmo. Então se nem tomamos consciência de quem somos, de que afinal serve tanto esforço? Precisamos de nos unir, de nos fortalecer, de nos sentirmos bem, de estar bem com a vida, de perceber que o que nos acontece tem uma razão de ser: crescer e encontrar o nosso caminho, a nossa missão, somos todos seres únicos. O yoga ou outro método que trabalha o nosso eu espiritual deve existir na vida se quisermos ser completos. Se temos tudo e ainda assim não somos felizes, o que falta? Falta a descoberta do Eu. O yoga é uma ferramenta para isso, há mais. Mas há que aprofundar um método para essa descoberta com disciplina e devoção, dedicação e determinação. 

Aconselho a experimentar, a descobrir, a persistir na busca. O início é difícil, tudo novo, estranho, estamos com corpos fechados, duros, a precisar de limpar anos de emoções que se acumularam nos músculos, articulações, órgãos. Mas com tempo tudo começa a abrir, a respirar, a limpar e sentimos não só no corpo mas também na mente os benefícios de uma prática diária. O primeiro passo é o compromisso, connosco, com querermos mudar e evoluir na consciência. 


2. Hoje em dia o Yoga é praticado nos ginásios como forma de fitness, perdendo-se na maioria das vezes o ensinamento teórico e a explicação dos benefícios das posturas (Asanas) e muito principalmente o que está por detrás das principais formas de respiração (Pranayama). Quais os tipos de Yoga que existem e como escolher entre eles?

FV Há muitos tipos de yoga mas as formas tradicionais são as que tenho como referência. Eu pratico Ashtanga Yoga que é uma forma de Hatha Yoga na linhagem de Sri K Krisnamacharya. Este senhor é considerado o pai do Yoga moderno pois trouxe-o para homens comuns, com famílias e trabalhos. Deixou de ser uma prática de brâmanes para se tornar acessível a todos. E foi o professor de nomes como Pathabi Jois, Iyengar, Desikachar, A. G. Mohan. Todos abriram escolas que são as grandes referências na Índia e no mundo.

Para escolher penso que devemos seguir uma destas linhagens tradicionais e quando escolhemos uma seguir essa escola. É importante seguir um professor. Ele chega quando o aluno está preparado. 

3.Para se praticar Yoga temos de nos “converter” ao Vegetarianismo?

FV O yoga não converte, transforma. É uma caminho, vamos entrando, aos poucos mais a fundo, vamos conhecendo o nosso corpo e conectando com a nossa essência. Vamos tornando o corpo mais sensível e daí queremos estar bem e nutrir-nos com comida que nos torne vibrantes, saudáveis, com luz. Naturalmente as questões de como os animais são tratados pela indústria alimentar vêm ao de cima. Animais que vivem para serem ingeridos não é uma ideia que me atraia. Também o que esta indústria está a causar ao planeta é algo que me preocupa. 

Eu nunca advogo nada em relação à alimentação, é uma opção pessoal. O que costumo dizer é que devemos ter consciência do que comemos. É importante estarmos cientes de que estamos a influenciar muito o nosso organismo quando tomamos esta opção. Já não é novidade que a maioria das doenças são causadas por má alimentação. 

"Let food be thy medicine and medicine be thy food" (tradução livre: Que o teu alimento seja o teu remédio e que o teu remédio seja o teu alimento) é uma frase de Hipócrates com milhares de anos. A sabedoria está aí, temos de ser responsáveis por nós, pela nossa saúde e pela saúde da nossa grande casa, o planeta. Comer biológico não é caro, comer químicos é que é, a conta será bem mais alta quando chegarem as consequências. 


4.O Yoga e o Ayurveda. Diz no seu livro que sendo ciências irmãs, se complementam (o Yoga sendo o “Porquê” e Ayurveda sendo o “Como”) ou seja no Yoga apercebemo-nos onde a nossa energia se esvanece e pela Ayurveda como a recuperamos. Onde podemos conhecer mais sobre esta relação?

FV  O yoga é o lado espiritual da Ayurveda, a Ayurveda é o lado healing, curativo do Yoga. 

São ciências irmãs, uma não vive sem a outra, complementam-se. A Ayurveda dá-nos as linhas orientadoras de como devemos viver, comer, estar, que tipo de yoga praticar, como nos proteger de acordo com as estações do ano, um lifestyle completo de acordo com a nossa constituição. Todos somos diferentes, de ritmos diferentes e estas ciências ajudam-nos a entender como lidar com essa diferença. Por exemplo, agora chegou o Outono uma estação do ano mais fria, seca, de mudança, de folhas que vão cair, de movimento. A Ayurveda aconselha a refeições mais enraizantes e quentes, a tratar da pele com óleos, a ter uma rotina e refeições estáveis, a ter tempo para nós cada dia. O yoga pela manhã é uma excelente forma de nos conectarmos e nos prepararmos para o dia. 

Tudo se aprende a praticar. Quando começamos a praticar e a entender esse nível de frequência tudo se encaixa. É um saber também muito empírico.


5. Onde a podemos encontrar? Dá aulas em algum espaço?

FV Dou aulas em Cascais, na Charneca do Guincho num Hostel - Guincho Wayra House. Dou aulas num retiro na Malveira da Serra. Em Lisboa neste momento dou aulas privadas e semi-privadas. É o que caminho que encontrei para dedicar o tempo de forma mais pessoal aos meus alunos ensinando de forma minuciosa, profunda e com resultados fantásticos. E faço muitos retiros, um trabalho que adoro fazer, em que de novo tenho tempo para imergir os alunos numa viagem ao mundo do yoga, seja para conhecerem, seja para aprofundarem os conhecimentos. E continuo a ir a Bali para ensinar e à Índia para aprender.

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