QUANDO O PESO AFECTA A QUALIDADE DE VIDA | POR PROFESSORA PAULA FREITAS

A Obesidade é uma doença crónica e não só uma mera questão de peso. De facto, a obesidade é reconhecida como doença pelas organizações de saúde incluindo a Organização Mundial da Saúde.
 A Obesidade é uma doença multifatorial, altamente complexa e um dos principais fatores de risco para a diabetes mellitus tipo 2. Adicionalmente, está associada a um risco acrescido de outras doenças metabólicas, cardiovasculares, inflamatórias e cancro. A obesidade tem um enorme impacto na qualidade de vida e na mortalidade. Algumas destas comorbilidades associadas ao excesso de peso e à obesidade são insulino-resistência, diabetes, dislipidemia aterogénica, hipertensão arterial, insuficiência cardíaca, inflamação vascular, apneia obstrutiva sono, doenças gastrointestinais e hepáticas (esteatose hepática, cirrose), síndrome do ovário poliquístico, infertilidade feminina, hipogonadismo masculino, artroses, insuficiência vascular, depressão, morte cardiovascular e vários cancros como mama, endométrio e próstata, entre outras.

A obesidade é hoje uma epidemia global e existem 1,4 milhões de pessoas com obesidade em Portugal, o que faz do nosso país um dos países com maior taxa de obesidade da União Europeia. Para que a sua prevalência não continue a aumentar há que implementar estratégias de prevenção quer primárias, secundárias ou terciárias. Ou seja, há que implementar medidas de educação para a saúde como o ensino das escolhas alimentares saudáveis e promoção do exercício físico regular dirigidas a toda a população (prevenção primária); implementar medidas de prevenção às populações em risco de obesidade (prevenção secundária), como por exemplo, após a gravidez, a menopausa, após a cessação tabágica, a imobilização forçada após um acidente, populações socialmente desfavorecidas, etc. 

Está bem estabelecido o aumento de obesidade nas classes socioeconómicas mais desfavorecidas, e nestas seria importante implementar medidas de educação para a saúde. Finalmente, a prevenção terciária que é dirigida às pessoas com sobrecarga ponderal ou obesidade ainda ligeira para evitar que evolua para formas mais graves de obesidade ou que se instalem as comorbilidades associadas à obesidade. 

Apesar da obesidade ser uma doença crónica com um grande impacto na Saúde Pública e nos sistemas de saúde e apesar da seriedade, do impacto e do aumento do foco público na doença, verifica-se que a obesidade é ainda bastante subdiagnosticada e consequentemente subtratada e muitas vezes olhada apenas como um problema estético ou cosmético.
No que concerne às suas causas, esta é influenciada por múltiplos fatores como os hábitos alimentares, sedentarismo, fármacos, fatores genéticos, determinadas doenças endócrinas, alterações no microbioma intestinal, disruptores endócrinos no ambiente e na cadeia alimentar, fatores psicológicos e socioeconómicos, aspetos de urbanização, sistema de transportes, aspetos culturais, indústria alimentar, meios de comunicação social e publicidade na prevalência da obesidade, entre outros. No entanto, os grandes promotores da obesidade, na sociedade atual são o estilo de vida moderno associado a um aumento do consumo e diminuição do dispêndio energético. A disponibilidade alimentar é uma constante e as tecnologias no trabalho, na diversão e na ocupação de tempos livres estão associadas ao sedentarismo. 

A obesidade é uma doença grave e clinicamente complicada e uma vez instalada deve ser alvo prioritário de tratamento. O tratamento com sucesso requer uma modificação comportamental sustentada, composta por dieta e exercício e quando indicado por medicamentos aprovados para o tratamento da obesidade e cirurgia bariátrica sempre que necessário e indicado. No que diz respeito aos fármacos, apenas se devem usar aqueles que demonstraram ser seguros e eficazes em estudos científicos em termos de redução de peso e das comorbilidades associadas ao excesso ponderal. 

A intervenção sustentada significa que qualquer intervenção a curto prazo não terá impacto a longo prazo, e está votada ao insucesso, ou seja, ao reganho ponderal.

Contudo, mesmo pequenas perdas de peso ou perdas moderadas de peso têm impacto favorável na regressão das múltiplas comorbilidades e na qualidade de vida sem ser necessário ou obrigatório atingir o “peso ideal”. 

Perdas de peso de 5% a 10% do peso têm benefícios, muito para além do aspeto físico, na redução de risco de diabetes mellitus tipo 2 ou regressão da diabetes, redução de fatores de risco cardiovasculares, como a hipertensão arterial e dislipidemia, melhoria na gravidade de apneia do sono e na qualidade de vida.

Lembre-se e tenha em consideração que apesar da obesidade ser uma doença crónica, complexa e multifatorial é tratável e possível de prevenção, se precocemente procurar ajuda médica e estiver preparado para modificar o seu estilo de vida.




Paula Freitas, MD, PhD, 
Presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade

Comentários

  1. Quero muito deixar a obesidade para trás na minha vida. É uma porcaria. É mesmo. baaaaaaaaaaah! Nem sei mais que dizer. Sinto-me culpada por me ter deixado lá chegar, mas agora só me quero ver livre dela, isso sim!!


    Um beijinho dourado,

    Catarina

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