MITOS SOBRE A CONTRACEPÇÃO - PARTE I

Porque no próximo dia 26 se celebra o Dia Mundial da Contracepção, sai este artigo em duas partes, que tem como objectivo desmistificar algumas questões referentes à contracepção e consequente uso da pílula do dia seguinte. Sem falsas moralidades ou hipocrisia, aqui ficam os Mitos que nos rodeiam em modo Verdade ou Falso.
"Liberdade com Responsabilidade" é um lema já antigo mas a verdade é que nunca é demais frisar que a responsabilidade implica conhecimento de causa e é necessário que estejamos certas do que fazemos. 

1. “A Ovulação acontece a meio do ciclo, por volta do 14º dia.” 

FALSO. Em mulheres com ciclos ovulatórios regulares (24-31 dias), a ovulação ocorre entre o 10º e o 17º dia. Portanto, a ovulação só acontece no 14º dia em mulheres com ciclos regulares de 28 dias, por exemplo as que tomam a pílula contraceptiva. (1. Baird DD et al. Epidemiology 1995;6:547-556)

2. “Se o meu ciclo é regular, a Ovulação aparecerá sempre a meio do ciclo.”

FALSO. A data da ovulação em ciclos espontâneos é muito variável. Mesmo em mulheres com ciclos regulares e que sabem inclusivamente a data exacta do primeiro dia da última menstruação, não é possível afirmar com certeza em que fase do ciclo se encontram no que diz respeito à ovulação. (1.Baird DD et al. Epidemiology 1995;6:547-556)

3. “Os ciclos regulares existem (a menos que esteja a tomar uma pílula contracetiva).”

FALSO. A regularidade do ciclo é variável, principalmente nas mulheres que não tomam pílulas contrapcetivas. Qualquer situação de stress físico ou emocional pode alterar a duração do ciclo e, por conseguinte, a data da ovulação.

4. “Não posso engravidar no início nem no final do meu ciclo.”

FALSO. Partindo do princípio de que a data da ovulação é variável, é difícil saber qual o risco de gravidez em relação à altura do ciclo. O risco de ficar grávida é muito mais baixo nos primeiros três dias do ciclo, uma vez que nesta fase a iniciação de qualquer método contraceptivo tem uma eficácia muito elevada. É, contudo, também muito importante ter em conta que os espermatozóides podem manter-se vivos no aparelho genital feminino durante cinco dias. Para além do dia do ciclo em que se encontra, este é um dado importante a considerar. (2. Wilcox AJ et al. N Eng J Med 1995;333:1517-21) 

5. “A fecundação produz-se imediatamente após as relações sexuais sem protecção.”

FALSO. Após uma relação sexual, o espermatozóide pode sobreviver até cinco dias no aparelho genital feminino, e é durante este intervalo de tempo que um óvulo pode ser fecundado. (3. SR Palone JABFM 2009; 22(2):147-157)

6. “As relações sexuais sem protecção só ocorrem muito raramente.”

FALSO. As relações sexuais sem protecção ocorrem muito frequentemente. A gravidez pode ocorrer se uma mulher tiver relações sem protecção ou com protecção contraceptiva inadequada. O “coito interrompido” e o preservativo são métodos que dependem de quem os utiliza e frequentemente não são sempre utilizados entre casais que recorrem a estes métodos regularmente. A pílula é um método muito eficaz, mas exige uma toma diária sem esquecimentos, o que frequentemente não ocorre. É fundamental que a mulher tenha consciência de que a relação sexual teve ou não uma protecção adequada. (4. Nappi RE, et al , Eur J. contracept Reprod Health Care 2014.)

7. “Não posso ficar grávida quando as relações sexuais ocorrem fora do meu período fértil.”

FALSO. O período fértil pode ser variável, mesmo numa mulher com ciclos regulares. A ovulação depende do sistema hormonal, que facilmente é influenciado por situações do dia-a-dia, levando a que a informação para que se produza a ovulação se transmita antecipadamente ou mais tarde do que o previsto. Portanto, se uma mulher tem relações sexuais sem protecção fora do seu período fértil deve tomar contraceptiva de emergência, caso não pretenda engravidar. (2. Wilcox AJ et al. N Eng J Med 1995;333:1517-21)

8. “Estou a amamentar, portanto não posso ficar grávida.”

FALSO. A amamentação é conhecida como “método de amenorreia lactacional”. Amamentar é um método contraceptivo seguro sempre que ocorram todas as seguintes condições: 
  • se a mulher amamentar regularmente e com um intervalo não superior a seis horas entre mamadas, incluindo à noite; 
  • se não teve menstruação após o parto e o bebé tiver menos de seis meses. 
Se todas estas condições não estiverem presentes pode ocorrer uma ovulação sem estar prevista e, no caso de ocorrerem relações sexuais desprotegidas, a mulher pode engravidar.

9. “Não se pode ficar grávida se a mulher não tiver um orgasmo.”

FALSO. O orgasmo feminino não vai influir no risco de gravidez. A falta de resposta sexual feminina deve-se a um complexo conjunto de causas físicas, emocionais e de relação. O risco de gravidez existe desde que o companheiro tenha ejaculado ou emitido líquido pré ejaculatório e a mulher se encontre no seu período fértil.

10. “Não preciso de tomar contraceptivos porque só mantemos relações sexuais durante o período "seguro". Só somos férteis um dia por mês.”

FALSO. As mulheres não são férteis só um dia por ciclo. O período de maior fertilidade encontra-se no intervalo que decorre desde o 5º dia antes da ovulação até ao final do dia da ovulação. 

Mesmo com ciclos regulares de 26 a 32 dias, o período de abstinência sexual deve ocorrer entre o 8º e o 21º dia do ciclo (14 dias, no total) e, tendo em consideração as variações que tem o ciclo menstrual, a abstinência sexual deveria alargar-se durante 16 dias por mês para aumentar a eficácia do método. (2. Wilcox AJ et al. N Eng J Med 1995;333:1517-21, Baird DD et al. Epidemiology 1995;6:547-556)


11. “Não vou ficar grávida se o meu companheiro interromper o ato antes de ejacular.”

FALSO. O coito interrompido ou “coito interruptus” é um método que necessita de uma grande motivação e auto-controlo do homem. É um método de baixa eficácia contraceptiva, uma vez que durante o ato sexual, ainda antes da ejaculação, pode ser libertado líquido pré ejaculatório que contém espermatozóides.


12. “Não vou ficar grávida se tomar um duche (ou banho) ou urinar imediatamente após ter relações sexuais.”

FALSO. Nenhuma dessas práticas vai impedir que os espermatozóides possam deslocar-se até ao útero e às trompas à procura do óvulo. E, pelo contrário, um duche vaginal poderá até favorecer esta subida dos espermatozóides.

Ainda que o uso de sabão ou gel possa dificultar a viabilidade dos espermatozóides na vagina, não existem garantias, em nenhum dos casos, de que os afecte no seu conjunto. E, por último, é necessário ter presente que a urina é expelida do organismo através de um sistema/canal totalmente independente da via vaginal, não tendo qualquer influência na viabilidade dos espermatozóides.

Continuamos para a semana ...

Referências: 

1. Baird DD et al. Epidemiology 1995;6:547-556

2. Wilcox AJ et al. N Engl J Med 1995;333:1517-21

3. SR Palone JABFM 2009; 22(2):147-157

4. Nappi RE, et al , Eur J. contracept Reprod Health Care 2014

7. WHO medical eligibility criteria wheel for contraceptive use – 2015 update

8. The American College of Obstetricians and Gynecologists WOMEN’S HEALTH CARE PHYSICIANS PRACTICE BULLETIN Number 152, September 2015

9. WHO; Fact Sheet, Feb2016. Emergency contraception

10. DM Walkert et al. J Adolesc Health 2004; 35(4):329-34






Comentários