COISAS QUE O CANCRO ME TIROU - PART 1 | POR CARLA DE SOUSA PINTO

Podia não ser muito dada a ir à igreja frequentemente… mas tinha a minha fé! Casei com gosto e grande orgulho, pela igreja e nesse dia prometi que quando tivesse filhos eles seriam baptizados pela fé católica, tal como eu havia sido.
Rezava diariamente. Muitas vezes falava com Deus. Questionava-O acerca do que havia de fazer, numa decisão a tomar… 

Note-se que fui educada assim. Apesar de não ter uma Mãe que frequentadora da igreja, o meu Pai nunca falta uma semana à missa.

Fiz catequese, comunhões, crismas… e o hábito começou a fazer parte de mim.

Mesmo quando tive fases de perdas irreparáveis na minha vida, ou de desafios complicados, a fé nunca me abandonou.

Quando os meus filhos nasceram, com o tempo, considerei que os havia de baptizar, quando fossem um pouquinho maiores. (Nunca gostei muito de baptizados de bebés; e o tempo, claro, foi passando.)

No dia que fui buscar os convites para o tão esperado baptizado (1ª tentativa) foi no dia 26-4-2015. O dia que descobri o meu nódulo. Tudo se precipitou e acabou por ser adiado o sacramento.

Com a “introdução à vida com Cancro”, há quem se “agarre” a muita coisa. Já vi quem comesse coisas bastante estranhas, recomendadas por senhoras bastante duvidosas; quem mudasse radicalmente de alimentação; quem nunca mais consuma qualquer graminha de açúcares. Para mim foi Deus. A voz Dele… Naquele momento apagou-se em mim.

A fé saiu de mim, ou eu abandonei-a! 

Sinti-me defraudada, frustrada, com uma sensação de não pertença de toda aquela devoção. Eu tinha dado mais para merecer este “desígnio divino”.

Repudiei a minha fé, cumprindo no entanto o que havia prometido. No primeiro aniversário da minha cirurgia baptizei os meus filhos.

Apesar de por vezes ir a casa “Dele”, não me sinto como antes. Não trago felicidade, animo ou conforto; e de lá não trago nada.

Há talvez quem creia que foi “Ele” quem me tratou… eu não concordo, para mim foram as minhas médicas que muito estudaram e que me trataram o melhor que souberam. 

Foi uma das coisas que mudou com o cancro…

A minha Fé está pelas ruas da amargura- é verdade (e sinto-lhe a falta, confesso), no entanto compenso-a com Esperança, que foi algo a que nunca dei muito ênfase.

Talvez, de tanto me instruir acerca de casos oncológicos e até conhecê-los chego à brilhante conclusão de Dostoievski quando dizia que “A fé e as demonstrações matemáticas são duas coisas inconciliáveis”.

Concordo tanto!

Com tantas terapias, apoio, alternativas e inovações, para mim a palavra de ordem para um sobrevivente será sempre ESPERANÇA e acreditar.

O melhor ainda está para vir!

Beijinhos para todos








Carla Sousa Pinto

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