DO OUTRO LADO DO ESPELHO | POR CATARINA VALADAS

À Espera da Oportunidade Certa...
 "Um caminho de mil quilómetros começa com o primeiro passo." Lao-Tse. 
Não podia terminar este livro sem escrever a minha história.
Não podia, mas achei que devia deixá-la para o fim, não por ser menos importante, mas porque quero aproveitar para falar de várias coisas que podem ser uma alavanca para quem está desse lado.

Dos meus 28 anos não tenho uma mão cheia de coisas para contar, mas tenho aquelas que me fizeram chegar até aqui. Posso partilhar a única coisa em que acredito neste momento: que temos o poder de ser felizes e que a nossa vida é o reflexo daquilo que pensamos e não tanto do que nos está a acelerar o coração.

O que me fez chegar a esta conclusão foi o facto de ter passado uma parte dos últimos anos, mais a pensar do que sentir. A pensar no que seria correcto, a pensar que devia ser magra, a pensar que devia ser perfeita e a pensar que não era merecedora de uma vida feliz.

Da minha adolescência guardo uma desilusão amorosa que me marcou muito, aquela espécie de filmes de adolescentes em que alguém faz uma aposta sobre ti. Ouvi sempre que devia emagrecer, ouvi várias vezes que "metia nojo" porque comia demais, e são palavras dessas que ainda ressoam muitas vezes, quando ainda me olho ao espelho.

Com o meu crescimento, a minha saída da escola e a minha desistência da Faculdade, em
Psicologia, comecei a trabalhar. Tive vários trabalhos de curta duração e mais uma desistência de um curso: "Psicopedagogia Curativa", duas ou três tentativas para tirar a carta, que nunca acabei... e neste momento comecei a perceber que nada do que eu começava, finalizava.

No fim de contas, a única coisa que eu gostava era de escrever, mas da vida e das minhas
capacidades pouco conhecia. No fundo, não me conhecia. Em 2006, comecei a trabalhar numa empresa e tive o meu 1o emprego mais duradouro, até 2012. Foi nestes anos que alcancei alguma estabilidade financeira, que me senti realizada por trabalhar, mas ao mesmo tempo, sempre vazia, sempre insatisfeita, sempre com falta de algo que me acalmasse e serenasse o coração.

Neste intervalo, já com o meu peso ideal, percebi que também não me sentia feliz por muito
tempo, ainda me culpava pelas relações falhadas, pela minha falta de auto-estima e pelo abandono do meu amor nas mãos de outras pessoas. Conheci nessa fase todos os medicamentos, suplementos, batidos e tratamentos, que me prometessem colocar-me bem comigo, física e psicologicamente.

Conheci o Amor e foi instantâneo apaixonar-me por Ele. Foi dos sentimentos mais bonitos e
tristes que vivi até esta altura.

Desenvolvi uma Compulsão Alimentar, porque vivi uma época de restrições alimentares, ginásio e todas as minhas dores e frustrações estavam mais uma vez a vir à tona. No fundo, a compulsão era alimentada por mim, derivada da profunda dor e insatisfação que tinha para comigo mesma, alimentada por tudo aquilo que eu não perdoava, não ultrapassava e não conseguia seguir em frente.

Nada funcionava, porque eu não queria. (Agora consigo admitir). Porque o meu corpo grande era o meu esconderijo, porque se fosse " gordinha" ninguém podia entrar na minha vida, para magoar-me novamente.

Deixei que a minha Compulsão me alimentasse nestes últimos 6 anos. Deixei que ela me fechasse muitas vezes em casa, me fizesse esconder, me fizesse encher até o meu dia parecer melhor. Deixei vir à tona uma Catarina triste, sem brilho nos seus olhos, mas sorridente e feliz aos olhos dos outros.

Em 2012, fiquei desempregada. Acho que só me caiu a "ficha" quando estava na fila do centro de emprego e senti o chão a fugir dos pés. E agora? O que ia eu fazer? Quem iria eu ser? 

Resolvi dedicar estes últimos 2 anos e meio a procurar o meu caminho. Fiz várias formações, como Terapeuta, ajudei muitas vezes os outros e mais uma vez, lá estava eu focada em tudo menos em mim.

Tive crises constantes de pânico e ansiedade, continuava escondida na minha compulsão e dei por mim completamente desconectada, completamente no fundo do poço, agarrada ao passado e a uma imagem de mim que já não existia. No fundo, reconhecer que precisamos de ajuda, é um acto de coragem. Na verdade, neste tempo, tive muitas mãos amigas de terapeutas e amigos que me aconchegaram muitas vezes o coração, me acalmaram e me fizeram acreditar que: tudo dependia de mim, que eu era capaz de ultrapassar estas fases da minha vida.

Decidi largar tudo. Largar as Terapias, vender imensas coisas, livrar-me de tudo o que estivesse a atrasar-me o Caminho. Na realidade, eu queria apenas tempo para descobrir-me dentro de mim, sair da zona de conforto, abraçar novos desafios e permitir-me chorar tudo de uma vez, para poder simplesmente libertar-me dos muros que criei e ter a vida que merecia de verdade.

Chegou a altura de me Olhar, com olhos de ver. De fazer uma festa na cara e dizer "Está tudo bem, o Importante Agora, é Seres Tu!".


O meu 1º passo foi escrever este livro. Eu sabia que fazê-lo iria ser o início de um tratado de paz comigo mesma e iria permitir-me ver-me Do Outro Lado do Espelho.

O 2º passo, foi assumir que estou doente sim, mas que a minha cura começa em mim. Que eu tenho o poder de escolher como quero viver agora e que viver no passado " é correr atrás do vento", nada nos acrescenta, apenas nos faz olhar-nos e olhar a vida de uma outra maneira. Tudo o que vivi fez-me olhar para cada dia, como uma oportunidade de SER...simplesmente. De me alimentar do que me faz feliz e de fazer do " Amor", o meu Mantra. Porque na essência, é aqui, neste sentimento, que quero estar.

Agora é Tempo de Ser. Tudo o resto vai-se cruzando comigo no Tempo Certo.









Catarina Valadas
Terapeuta Holística e Inspiradora


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