A MINHA HISTÓRIA | POR CARLA SOUSA PINTO


Partilho a minha história para que se inicie a quebra dum Mito! Para que se compreenda que “NUNCA é demasiado cedo” para se ter um Cancro de Mama. Os Rastreios e a Prevenção deverão ser efetuados desde os 20/25 anos! Ao detectar diferenças no seu peito ou axila, contacte imediatamente o seu ginecologista. A acção rápida pode salvar a Sua Vida!
Era Abril de 2015, tinha acabado de festejar o meu 37º aniversário. 
Estava Feliz! Casada com um Homem excepcional, Mãe de 2 crianças fantásticas com 3 e 5 anos, tinha regressado à vida corporativa há pouco mais de ano e meio, após uma pausa para o gozo da tão sonhada maternidade. Agora sim, vivia o sossego da guerreira!
Até aquele banho, naquele Domingo, em que “o” senti - Definido, duro e rígido. No meu seio esquerdo! Não doía, mas não podia negar… estava lá!
Apesar de ser uma pessoa positiva, soube logo… que estava perante algo mau, muito mau!
Os meus gritos de terror saiam mudos e as lágrimas salgavam o “último” dos meus banhos.

Logo no dia seguinte, a ginecologista efectuou a apalpação e mesmo sem nos conhecermos, adoptou uma postura bastante formal. Dizendo-me com empatia:
 “-Querida, não me parece nada bem, vamos agendar mamografia e ecografia com muita urgência”
Acompanhou-me no agendamento, e foi tudo o que se pode pedir a uma médica desconhecida, que mostra simpatia e entende o que “o outro” estará a passar. Estava sozinha nessa consulta, pois fui directa do emprego… Enquanto vomitava assustada no wc, juro que tive uma experiência de abandono do meu corpo, onde me vi a iniciar uma batalha, que era a minha, mas que vinha ter comigo, cedo demais na minha vida..  só conseguia pensar nos meus filhos!

Três dias depois estava nos exames que supostamente me dariam o diagnóstico. Ia muito ansiosa e ansiosa também, para que ninguém o percebesse, em especial a minha Mãe, que me acompanhou, sempre.
Não eram novidade alguma, desde os 29 anos e até antes sempre cumpri um plano de ecografias mamárias para rastreio do Cancro da Mama.
Lá fui Eu… Vestida com a minha capa de optimismo e sorriso.
Estes testes voltaram a dizer que não era “Nada de bom” e que teria que regressar para uma biópsia sete dias depois.
A Biópsia foi feita e os resultados foram dados antes do prazo, ao meu Marido, via telefone, a 13 de Maio por um amigo que trabalha na Instituição. “É Mau, e é o Pior!” – Dou graças a esta pessoa ter existido neste processo… Poupou-me a ingratidão de ter que dar eu a notícia ao Amor da minha vida, aos meus Pais e Irmã… No fundo, eu fui a última a saber... e foi o meu Marido que me contou!

No dia seguinte fui buscar o relatório oficial -  Carcinoma invasivo ductal, com extensa necrose, Grau III. Mais tarde soube-se que era um Triplo Negativo, que é o Tumor mais raro e mais agressivo, com uma taxa de crescimento de 100%, ou seja… um grande desatino! Em 7 dias chegou aos gânglios axilares… porque uma maminha não chegava!...
Havia que reunir as tropas, pois não havia tempo a perder, estávamos em guerra!
Nessa fase, por incrível que pareça… acalmei! A dúvida fez-me pior que a confirmação do Cancro! Ia lutar! Isso era já um facto certo. Com tudo isto, já haviam passado quase 3 semanas desde que tinha encontrado o nódulo no banho, e ele crescia que apenas com os meus dedos, dava para ver!

Logo no dia seguinte (foi uma loucura de consultas e exames) estava numa grande Instituição de saúde privada com uma Cirurgiã de topo. Disse-me, olhando-me nos meus olhos que me ia tratar, e que eu ia ficar bem! – E Eu acreditei!
Tive uma Oncologista fantástica e toda uma equipa multidisciplinar de excepção, desde Enfermagem a Fisioterapia sempre, sempre comigo. Mas, o mais importante, já Eu tinha comigo! O Amor, a Minha Família!
Coloquei um cateter, fiz quimioterapia, levei injecções na barriga (para subida forçada de glóbulos brancos), cirurgia, esvaziamento axilar, reconstrução bilateral e radioterapia.

Passei momentos duros! Do usual rapar de cabelo (que não valorizei propriamente) à mudança corporal e às cicatrizes (essas sim, das quais já sou menos apreciadora), uma pneumonia que me privou de ver os meus filhos por uns dias, foram nove dias de internamento.

O Cancro é um bicho malvado que nos põe à prova e joga com as nossas forças, sentimentos e de quem nos rodeia! Quando Eu tive um Cancro, toda a minha Família parou para se unir a Mim, sou e sempre fui extremamente abençoada! Sinto que sempre tive as “armas” para lutar. A minha fraqueza neste processo foi sempre, e continuará sempre a ser o medo de deixar os meus filhos cedo demais.

Veio o sucesso e a Remissão! Sou oficialmente uma Sobrevivente!

Luto contra as estatísticas da minha doença, contra o desconhecido (a minha doença não tem tratamentos direccionado) contra a neuropatia, a incapacidade, as leis, as objeções e discriminações!

A Minha Vida mudou. Sou mais Humana, sou mais atenta, sou mais… “vivente”.

Estudei muito o cancro e os afins e estou habilitada a ajudar quem passa pelo que eu passei. Sei bem o terror que é, e o que é ver o terror nos olhos de quem mais nos Ama!
Dou-me mais aos outros. Sou mais feliz!

Sinto-me tão grata àquele momento em que a minha mão deslizou para a minha mama e descobri o meu Cancro a tempo!

Grata ao meu 2º acto, grata à Vida!






Carla Sousa Pinto
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Crédito da imagem de capa do post: pixabay.com/renategranade0 




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