TRAVESSIA | POR DIANA FAUSTINO

Por estes dias vi, algures, a palavra travessia: visualizei barcos pequenos e com a força dos meus braços ia remando. Vi águas azuis que refletiam as nuvens. Senti uma paz reconfortante.
O universo tem maneiras mágicas de chegar a nós, de trazer a sua mensagem, então guardei esta imagem reconfortante para tempos de tempestade: e quando é necessário vem esta imagem ao meu pensamento, especialmente quando preciso de encontrar o Oásis pleno dentro de mim. 

Chegam imagens de situações e pessoas, como se fosse convidada a ver de fora, a sair da emoção, do ego e simplesmente ver, analisar à luz da minha própria sabedoria. Redescobri o quanto sou apaixonada pelos humanos e a forma como manifestam a sua personalidade, a sua divindade e os seus padrões inconscientes. Sou uma apreciadora nata das expressões e manifestações humanas: o olhar, o sorriso, a forma como coloca as mãos, os pés, as palavras. A capacidade de resposta ao conforto e ao desconforto. 

Quando aprecio, não o faço em julgamento, mas em tentativa de compreender o outro que representa tantos outros. Talvez seja uma tática (inconsciente) de compreensão de mim própria. E descubro em cada pessoa um pouco do seu caminho, da sua capacidade de dançar a dança da vida. E nessa dança está ali a criança interior, como se o corpo fosse uma caixa de pandora pronta a desmontar, basta querer. 

Nesta descoberta de mim “através do outro” compreendi algo muito importante: existe uma necessidade constante de resgatar a criança interior do coração sério do adulto que nos tornámos. É um acto de salvação para não nos afogarmos em nós próprios: nas emoções contidas, na raiva e mágoa mal resolvidas. 

É interessante, também ver que por vezes as pessoas sentem-se sozinhas nos seus processos, mas todos, sem exceção estamos neles, estamos em constantes travessias por águas pouco conhecidas. Então é reconfortante para mim criar uma imagem de paz, de oásis, e claramente pode ser uma boa ferramenta para quem desejar usufruir da mesma. 

É necessário tomar conhecimento que estamos todos constantemente em alterações, escolhas, vivencias pessoais e com intensidades diferentes, logo é importante também ter compaixão tanto por nós mesmos como pelos outros: por vezes alguém que fala mal para nós ou que nos ofende, a maioria das vezes está a a reagir a uma energia que “mexe” com ela, com as suas dores, ou mesmo com o seu lado sombra. Contudo isto não significa que não devemos colocar limites e respeito aos outros. 

O mesmo acontece quando alguém elogia, na realidade esta pessoa também se está a elogiar a si mesma, está a ver algo na outra pessoa que também reconhece, logo se reconhece, também o tem em si. 

Este texto serve, para tranquilizar os corações daqueles que pensam que o mau só lhes acontece a eles e que os outros estão constantemente a viver processos de luz. Não é verdade, contudo quem vive processos de luz, decerto que já viveu processos de sombra e dor antes, e será normal voltar a vive-los pois a vida não é estática, a vida é movimento, então para conhecer algo temos de também conhecer algo semelhante ao seu oposto, senão nunca saberíamos a diferença. 

O primeiro passo para abraçar a cura pessoal é sem dúvida não se comparar com ninguém, é focar apenas e só no seu próprio caminho. É simples. Mas infelizmente crescemos numa sociedade em que de alguma forma a competição ganhou uma proporção tão irrealista que por vezes é difícil distinguir conceitos básicos como: “o caminho pessoal” e o “caminho do vizinho”. 
O segredo é encontrar um oásis/um local seguro, e lá permanecer, especialmente quando a tempestade começa a chegar, pois é nos momentos de recolhimento que nos relembramos como nutrir a nossa alma e assim ganhar força e amparo para continuar a caminhada.



Diana Faustino 

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