O MEDO

Como de há uns meses para cá, a Catarina Valadas iniciou a semana com um post que particularmente me "bateu cá fundo" quando o li. Trocámos umas mensagens sobre o mesmo e fiquei a pensar no que tínhamos falado. Estou quase a fazer 50 anos, meio século de vida bem vivida com muito disparates à mistura e muito erros por ter medo e por não o ter. 
Sou de uma geração arrojada, desbocada e centrada no "concretizar com sucesso". E é esse sentimento que nos mede, nos valida perante a sociedade, pelo que o medo de não ser o que seria esperado, esse, acompanhou-me de certo modo, em tudo o que fiz, com conta, muito peso e de forma desmedida, até um dia... e foi nesse dia começei a viver. 
O dia D, por assim dizer, em circunstâncias muito infelizes, obrigou-me a perceber que afinal tudo podia acabar de repente e isso fez-me ver as coisas de forma diferente. É realmente verdade que a vida tem maneira de nos fazer mudar ... nem que seja à força. Percebi então que o medo pode ser a consciência que nos incutiram, a sociedade em que nos integramos e os seus valores, a mentalidade comezinha de quem nos rodeia. Tem vários nomes e várias faces, pode ser o nosso melhor amigo e também o nosso maior inimigo. É preciso perceber o papel do medo na nossa vida, quando é que nos realmente está lá para nos proteger e quando nos castra. E, para mim, acima de tudo o que me ajudou a discernir quando o devemos deixar entrar e quando não devemos, foi o meu amor próprio, a minha auto-estima, foi ter parado para finalmente ter a consciência do valor que dava a mim mesma. E isso salvou-me, porque pude emendar o que tinha de ser corrigido. Somos livres de voltar atrás com a nossa palavra, com o nosso comportamento, de forma gradual mas decidida. Vai haver consequências? Sim. Mas assumirmos as mesmas faz parte do nosso plano de libertação!  Eu paguei e acreditem que estou aqui mais viva que nunca...
Ter medo do desconhecido é normal mas não em exagero, sair da nossa zona de conforto é essencial para o nosso crescimento, para nosso complemento. O que não é natural é vivermos insatisfeitas no marasmo das nossas vidas e ao invés de criarmos pontes para uma mudança, pequena que seja, continuarmos no queixume, na tristeza que nos assola e que gradualmente se vai transformar numa gaiola dourada sem porta, porta essa que não conseguiremos mais transpôr. Há que ter coragem sim, para introduzir novas rotinas, ligeiras que sejam mas que demonstrem que há outras formas de estar e ser que não as que nos habituámos. 
Não ter tempo, dinheiro ou maneira são os mais criativos queixumes da nossa existência. Mude as rotinas que tem e a sua existência vai mudar de perspectiva. A arte de viver não tem a ver com o que se tem de adquirir para mudar mas sim com o mudar com o que se tem...
Reinventar, Transformar, Reciclar ... a vida é o que nos exige, com o pouco que nos dá para termos o muito que queremos.

Palavra de quem já cá anda há umas décadas!

Beijinho, 

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