VIOLÊNCIA DOMÉSTICA: UMA HISTÓRIA REAL | POR CLÁUDIA CORDEIRO

E porque há um ano  precisamente assim começou a colaboração da Cláudia Cordeiro aqui na plataforma, recordamos este tema que lamentavelmente continua tão actualizado ... 
(...)A propósito do Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres, no passado dia 25 de Novembro e porque infelizmente  são as mulheres que em maior número são as vitimas de violência doméstica, vou contar a história da "Maria", que chegou até mim pela via profissional e que é a história de muitas "Marias" do mundo.
A "Maria" casou por Amor! A "Maria" amava o seu marido e vivia em função do casamento que segundo ela era perfeito! Havia uma cumplicidade muito grande entre ambos e assim vieram os filhos…Dois! Um menino e uma menina. E a "Maria" que era Diretora de Recursos Humanos numa  multinacional deixou de ter tempo para ir ao ginásio, ao cinema, sair com as amigas, namorar com o marido. Tinha para si, todas as tarefas de mãe e dona de casa e o seu marido e companheiro trabalhava, ia ao ginásio, bebia "copos" com os amigos, não tinha tempo para a ajudar.
Começaram assim as discussões do casal. A " Maria" sentia-se cada vez mais sozinha. Já não tinha vontade de se por bonita. As suas carnes estavam flácidas devido às gravidezes. E o seu marido já não a procurava para simplesmente dar um beijo.
O marido da "Maria" começou a chamar-lhe gorda, estúpida, burra, que não prestava para nada.
A " Maria" com tantas actividades e responsabilidades domésticas relaxou o seu lado profissional e foi "convidada" a sair da empresa onde trabalhava. Negociada a rescisão contratual por mutuo acordo começou uma nova etapa na vida da " Maria". Deixou de ter motivos para se arranjar, para ir ao cabeleireiro, para sair de casa sem ser para ir levar e buscar os filhos às múltiplas actividades. O marido da "Maria" em vez de a apoiar e confortar aumentou o tom das ofensas, não perdendo oportunidade para deitar a baixo a " Maria", ao ponto de também os seus jovens filhos já dizerem que a mãe era burra e que não percebia nada, tratando-a com total desprezo.
A auto estima da "Maria" não existia, e depois de uma discussão com o marido em que este acabou por lhe deixar nódoas negras na alma e fractura exposta no coração, resolveu pedir ajuda, e foi assim que conheci a "Maria" e que começou o seu longo processo de recuperação das rédeas da sua vida.
Assim que o seu marido se apercebeu que esta tinha contactado uma advogada tentou seduzi-la, manipula-la e demove-la dos seus intentos de se auto afirmar. Inicialmente conseguiu! Mas rapidamente voltaram as agressões verbais e físicas e de cada vez que recebia um telefonema da "Maria" ficava com o coração apertado e cheio de medo por ela, que não queria apresentar queixa contra o pai dos seus filhos.
Até ao dia em que a "Maria" acorda no Hospital de Santa Maria. Fui a correr ter com a "Maria" e "obriguei-a" ali mesmo a denunciar a situação.
O marido da Maria foi constituído arguido num processo de violência doméstica e, a par das medidas cautelares de não se poder aproximar e comunicar com a "Maria", ficou obrigado a frequentar consultas de psiquiatria e a fazer psicoterapia para reduzir os seus níveis de agressividade. Estas medidas ocorreram no âmbito do processo crime de violência doméstica em que era arguido o marido da "Maria" e esta era a vitima. As medidas foram propostas antes da acusação por parte do Ministério Publico, com a anuência e colaboração de ambas as partes. Se durante um determinado período de tempo ( dois anos), se verificar progressos no comportamento do arguido e as relações entre o marido e a Maria estabilizarem, o Ministério público não deduz a acusação e arquiva o processo. Se o arguido não cumprir as medidas injuntivas e não existir progressos comportamentais no sentido da estabilização da vida familiar, o Ministério público acusa e o arguido será julgado por violência doméstica.
Apesar dos avanços e recuos que a vida da "Maria" levou nos últimos três anos, hoje está separada do marido que cumpriu com o programa de injunções proposto pela Ministério Publico e em consequência disso o processo crime foi arquivado e sobretudo conseguem comunicar positivamente.

A  "Maria" criou uma empresa de "Engomadoria", tem a seu cargo três empregadas e Gosta de Si!

Até breve!

Cláudia Cordeiro
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